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Aconteceu na Nova Zelândia… (*)

março 2, 2010
Em um país chamado Nova Zelândia, um comercial de operadora de celular usa o slogan “Aqui, todo mundo conhece alguém que conhece alguém”. A propaganda se refere a (com crase) teoria do dramaturgo John Guare, segundo a qual no mundo cada individuo se interliga a outro numa distância de no máximo seis gerações. Na Nova Zelândia, no entanto, é um breve espaço de duas.

Tudo isso para justificar a aparição de Lawrence Arabia no presente artigo, que já foi uma vez citado por aqui. Todavia, Lawrence justifica-se por si só.

Em sua turnê, “A Decade of New Zealand”, que passou pelas quatro principais cidades do país, James quer celebrar a década que trouxe o Bug do Milênio. E, mais especificamente, os avanços de uma nação que “nos últimos dez anos, inaugurou a internet banda larga, a luta contra a anfetamina e o sucesso sem precedentes de Scott Dixon no campeonato norte-americano de Indycar. Todos, marcos que mostram uma nação em ascendência, madura, um arquipélago confiante que supera suas expectativas” – assim diz James em divulgação da turnê.

Uma mistura de deboche e patriotismo despretensioso é o que definiria o neozelandês James Milne. Quanto ao último álbum de Lawrence Arabia, “Chant Darling”, o leque de assuntos inclui desde o alcoolismo a problemas com timidez e pseudo-liberais sexualmente frustrados. Visões de morte induzida por drogas, desejos sujos por uma professora e o programa espacial da Nova Zelândia.

“Chant Darling” foi gravado parte em Auckland, parte em Londres, onde James fixou residência nos últimos dois anos. Na seqüência, em entrevista, ele fala mais sobre o processo de criação do álbum e mais uma pletora de assuntos.

Fale sobre um pouco mais sobre seu último álbum, sobre os artistas que colaboraram na produção e que tipo de coisas influencia suas músicas.

James – Foi um processo longo de completos dois anos em Londres. Eu senti que a mudança para Londres realmente afetou meu trabalho, porque eu perdi os contatos e colaboradores que tinha na Nova Zelândia. Mas tive ajuda de amigos, como o Liam Finn, Matt Eccles (da banda belga Das Pop) e Robert Hefter que me ajudaram emprestando equipamentos, estúdio e teto! Quando voltei pra Nova Zelândia, em dezembro de 2008, fiz a remixagem e masterização do álbum com ajuda do Olly Harmer. As musicas foram compostas antes e durante o período de gravação, entre 2006 e 2008, e elas são sobre as varias experiências urbanas em Auckland e Londres, geralmente tratando sobre se sentir frustrado e cansado, o que eu suponho ser uma mera representação do meu estado de espírito durante aquela época.

No Brasil, se alguém der um Google em ‘Lawrence Arabia’, os primeiros resultados seriam somente referentes ao filme (Lawrence da Arábia). Era essa a intenção?

James – Acho que é inevitável que o nome seja associado ao filme, mas quando escolhemos esse nome, só pensei que seria um nome divertido. Aliás, eu tinha pensado em mudar meu nome para Lawrence Arabia, começar a usar túnicas ou camisetas com os dizeres “Honorary Bedoiun”. Mas depois eu percebi que, na verdade, é um nome ridículo e meio impossível de se achar em sites de busca.

Uma outra banda neozelandesa certa vez me disse que a cena musical do país tem uma vibe “do it yourself” e que se precisa “think outside the box” para se destacar no exterior. Você concorda?

James – Sim, especialmente pela questão do DIY. A maioria das bandas daqui reluta em abrir mão da autonomia porque estão acostumadas em fazer tudo por conta própria, uma vez que a indústria fonográfica é modesta e não tem muito dinheiro para financiar bandas. Conseqüentemente, isso significa que as bandas não fazem as coisas da forma tradicional, tendo que ceder a determinações das gravadoras. Isso cria um grupo idiossincrático de artistas e, acredito eu, que isso ao menos nos dá a vantagem de soarmos criativos e originais quando se tenta divulgar nossa música no exterior.

Ir gravar ou tocar no Reino Unido parece ser algo bem recorrente para bandas neozelandesas. Como você diria que o publico de lá recebe as bandas neozelandesas? Quais as diferenças entre o público europeu e neozelandês?

James – Falando em um geral, a indústria do Reino Únido vem prestando mais atenção nas bandas da NZ, mas eu acho que o público de lá ainda tem uma atitude meio blasé conosco. Principalmente em Londres, que tem uma saturação de música boa e ruim surgindo a toda momento, é difícil chamar atenção do público. Na NZ, a diferença é enorme. O público é maior, grande parte sabe a letra das suas musicas, no Reino Único, ninguém conhece suas músicas ou sabe quem é você. Mas com o lançamento desse álbum, eu espero que isso mude!

O que você conhece do Brasil e de música brasileira?

James – Não conheço muito sobre o Brasil. Acho que o que os neozelandeses mais associam ao Brasil é a Floresta Amazônica e o nosso mais famoso velejador Sir Peter Blake sendo assassinado por piratas lá! Eu adoraria ver as obras do Oscar Niemeyer em Brasília e, ano passado, eu vi uma exposição fantástica do Cildo Meireles. Música brasileira? Eu conheço mais Tropicália, por causa dos Mutantes e, através deles, eu descobri Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé etc. Todos bem incríveis.

Tendo em mente que essa entrevista é para uma publicação brasileira. Se você fosse explicar a Nova Zelândia através de uma música. Qual música seria?

James – Acho que “Andy” do Front Lawn. Ela engloba a beleza de um dia de verão com ressaca em Takapuna (http://outdoors.webshots.com/photo/1371649026011007290KgqeaM), com a excitação/tensão em ser de esquerda em uma cidade capitalista e com a profunda melancolia de perder um ente querido. Essa música resume a noção do que é ser neozelandês e ela me faz chorar toda vez que a escuto. O que é algo muito bom.


(*) em referência ao bom e extinto programa infantil TV Colosso

Liam Finn, a trupe kiwi e a busca por algo interessante

outubro 28, 2009

Com cara de Los Hermanos e com som que funde folk e experimentalismos, Liam Finn é produto neozelandês e tem ascendência na dinastia da música pop do país em questão. É filho de Neil Finn, frontman do Crowded House, grupo dos anos 90 que se tornou lendária por essas bandas – você já deve ter ouvido algumas das músicas, como “Don’t Dream It’s Over” ou “Weather with You”. O nome Finn ainda pode se remeter a Tim Finn – o tio – que se aventurou no rock experimental, nos anos 80, com o projeto The Finn Brothers, com Neil.

Sobre a influência de Finn Senior, Liam diz: “Obviamente eu cresci ouvindo as músicas dele e com certeza isso se reflete no meu trabalho de alguma forma. Mas ele é mais uma inspiração como pai do que como músico. Ele me ensinou coisas sobre a vida e acho que é mais isso que se reflete na minha música”. Bonito, não?

Precedentes históricos já provaram que herdar um sobrenome está longe de uma garantia de talento. Liam quer a prova de fogo. Nos anos 90, tenta com a banda punk-rock Betchadupa e termina como começou: em nada. Em 2007, lança o álbum “I’ll be Lightining” – que traz músicas melódicas, influência de Beatles e do pai Neil Finn – e se muda para a Londres; que, by the way, é um trajeto comum dos músicos neozelandeses que anseiam por meios de fazer música.

Lá na terra-mãe, ele parece acertar o tom. Repercute aqui e lá fora.

Como ele mesmo disse, a cena musical kiwi precisa pensar outside the box para se destacar. A Nova Zelândia, eu já sabia, é e sempre será underestimated por motivo de força maior. Não só são britanicos por descêndencia isolados numa ilha no pacífico, como seguem a pira reggae-dub-praia. Ele não disse, mas eu gosto de pensar que é isso que está inside the box, se é que você me entende.

Agora, Liam volta à Nova Zelândia, após passar dois anos em turnê com seu último álbum solo. Volta acompanhado dos conterrâneos Eliza Jane, Connan Mockasin e Lawrence Arabia para o projeto nomeado “Having a Baby”, que inclui uma música com o mesmo nome e o EP “Champagne in Seashells” produzido em parceria com Eliza Jane.

O single “Long Way to Go” toca nas rádios neozelandesas e, apesar das proporções aqui serem meio invertidas, pode-se considerar que o EP tem sido bem sucedido. As músicas são up! e soam como resultado de jams entre amigos bêbados que seguem uma vibe “do it yourself” – mas por falta de coisa melhor.
Aqui, se você sai de manhã na rua, você vê uma mina de pijama que deita no chão, simula um natação no concreto, depois levanta e sai desfilando. A trilha pra performance, eu indicaria Lawrence Arabia.

Se comparado com “I’ll be Lighting”, o EP, se não regride, no mínimo nao fede nem cheira na modesta carreira de Liam Finn. Mas bele. All sweet. Eu só tô aqui de passagem, o show rendeu uma boa friday night, além de ter sido de grátis pra “imprensa”.

Para Lilian, um recommence de vida mais feliz:

outubro 24, 2008

[mp3] Andrew Bird – Oh No
“In the instance of this song I was on a flight from New York back to Chicago and a young mother and her 3-year-old son sat in front of me and it was looking to be the classic scenario of the child screaming bloody murder. He just kept crying “oh no” in a way that only someone who is certain of their demise could. Pure terror. Completely inconsolable. It was more moving than annoying.
So when I got home I picked up my guitar and tried to capture the slowly descending arc of that kid’s cry. It fit nicely over a violin loop that I had been toying with which moves from C-major to A-major”, (BIRD, 2008).

[mp3] Final Fantasy – The CN Tower Belongs to the Dead
[mp3] Liam Finn – Second Chance
[mp3] Liam Finn – Wide Awake on the Voyage Home
[mp3] The Decemberists – Yankee Bayonet (I Will Be Home Then)

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