Não conheço muito do Japão. Não seria apta para discorrer sobre as questões políticas, históricas e culturais dessa paísito do qual descendo. E por muito, muito, muito tempo eu fiz questão disso. De me manter alheia à esse povito.
E foi algo besta de se fazer. Meus avôs vieram do Japão, eu como gohan todo dia, minha infância foi cercada de japas, beisebol, nihongakou, undokai e bentô (não entendeu, põe no google).
A febre Matsuri Dance com taikos, comidas típicas e j-pop que contagiou a galera jovem de Londrina e região não é cultura japonesa, amiguinho. E além disso, é irritante. Dizem que os imigrantes japoneses no Brasil mantiveram mais os valores de seu país de origem do que os próprios japoneses. O Japão se ocidentalizou e nós, os erradicados e desbravadores, somos um exemplo de preservação da cultura. Que os jovens descendentes daqui se interessam pelas tradições e a colônia é um pleno motivo de orgulho. Isso tudo é muito lindo, mas me incomoda.
Talvez seja pelo trauma de ser forçada a fazer curso de japonês durante toda a infância e forçada a praticar beisebol na pré-adolescência, mas é justamente essa sensação que eu tenho. De uma certa imposição, de uma necessidade neurótica de “preservar a cultura japonesa”.
Antes, japs matavam patrícios que não acreditavam que o Japão havia vencido a 2ª Guerra Mundial. Aconteceu, no interior de São Paulo, um mini terrorismo que mostrava o grau de fanatismo e devoção ao país e seu imperador. Meus avós não aceitavam que meus pais se casassem com não-nipônicos, que dirá com um neguinho. E isso era comum.
Agora a coisa é mais amena, menos doentia.
Agora o negócio é montar grupinhos seletos, batizar com um nome e fazer camisetas. É promover festivais que “divulgam a cultura japonesa no Brasil” e tirar uma vantagem. Veja bem, japa só tem cara de trouxa. Provavelmente um japa roubou sua vaga no vestibular quando você não passou de primeira, japas são donos de fazendas, do Mc Donald’s e de construtoras, dão nome e comandam cidades.
Não nego de onde venho, não me entenda mal. Tipo a J-Lo no Jenny from the Block.
Meu pai diz que essa preservação dos valores é válida e se legitima por ser uma forma de prestar respeito aos velhinhos que deixaram o país de origem e que para as próximas gerações isso vai se diluindo por razões naturais. Certo.
De tudo que se diz japonês aqui no Brasil, quase nada me interessa. O que eu realmente gosto e valorizo com sinceridade e ingenuidade é a japice dos meus avós. Não a criação nipônica que eles tiveram e repoduziram na prole ou ter que ouvi-los falando japonês. É algo entre eles e que tem na casa deles, algo muito nihon, mas que não tem na casa de outras batians. Gosto da comida (que nem é tão boa assim, mas gosto), da batian que fala e ri com discrição e do ditian que gosta de falar da guerra e da vida sofrida (que não são histórias tão boas, mas gosto). Mas só deles, só naquela casa.
E eu também gosto dos valores japoneses. Os samurais cometiam suicídio, o seppuku, quando falhavam, passavam por algo muito humilhante ou o faziam pelo imperador.
Então! pessoal irritante e brega, seppuku!
(tooooo brincando)
e…DORAEMON (que dá um pau na Hello Kitty)